Repensando o Processo Grupal

A melhor técnica é uma boa leitura do processo grupal
Por Mauro N. de Oliveira, Isabel Cristina Moraes Doval e Doralício Siqueira.


Durante muito tempo considerou-se quem influência em quem, se era a sociedade no indivíduo ou se o indivíduo poderia influenciar a sociedade. Sabemos que tudo é possível, mas sabemos há pouco tempo, que tanto a sociedade, quanto o indivíduo e, também, o pequeno grupo têm uma forma de funcionar, suas normas, uma natureza e uma estrutura que igualmente será fonte de influência.
    Daí que podemos ver a sociedade em suas três dimensões: intrapessoal o indivíduo; interpessoal a relação; o grupo - grupal. Nestas três dimensões o humano acontece.
    Há um fato que precisa ser salientado. Por que há mais investimento em pesquisas que buscam conhecer o comportamento individual e as relações interpessoais em detrimento da pesquisa no funcionamento grupal?  Alvin Zander, um dos precursores no estudo do pequeno grupo traz uma reflexão muito importante: pouco se investiu e se investe na pesquisa do funcionamento do pequeno grupo porque o pequeno grupo não consegue repetir fatos observados em laboratório, não possibilita a formulação de axiomas, características fundamentais para que haja ciência.

Por que o pequeno grupo não possibilita o axioma?
Porque cada pequeno grupo funciona em uma cultura própria, com indivíduos diferentes. Só estes dois fatores são suficientes para garantir que não é possível ver o grupo num microscópio e encontrar resultados iguais, podemos encontrar semelhanças, mas nunca a repetição.
    Este é o que consideramos o principal fator que nos orienta para a importância do estudo dos pequenos grupos. Precisamos entendê-los para poder contribuir no seu crescimento. E entendê-los em seus contextos, em seus ambientes.
Vejamos como:
    Sabemos que há diversas maneiras de trabalhar com um grupo de pessoas visando o seu crescimento.
A mais utilizada é através da aplicação de técnicas, comumente chamadas de dinâmicas de grupo, que visam propiciar aos participantes de um grupo
uma oportunidade de aprenderem a respeito do que a técnica traz na sua estrutura. O resultado pode ser uma reflexão do como fazer e, algumas vezes, do como fazemos em nosso grupo. Nesta modalidade é o facilitador do grupo que decide qual técnica aplicar para ajudar o grupo no seu desenvolvimento. Não estamos desfocados se dissermos que é este quem decide o que o grupo deve trabalhar e como - o objetivo da técnica, através da técnica.    
    Outra modalidade é reunirmos pessoas, em grupo, para trabalharmos questões individuais dos membros do grupo  esta modalidade é muito utilizada em processos psicoterápicos e, na maior parte das vezes, simplesmente existe por razões econômicas  fica mais barato para os participantes individualmente  e o foco do trabalho está no indivíduo e não no grupo nem nas relações interpessoais, quanto mais no foco grupal.
    Outra ainda é trabalhar as três dimensões e no que cada uma delas contribui para cada um dos participantes do grupo e para o grupo como um sistema vivente.
    É nesta dimensão que a Sociedade Brasileira de Dinâmica dos Grupos trabalha e foca o seu Programa de Formação em Dinâmica dos Grupos. Entender o processo grupal em suas três dimensões é pressuposto fundamental. Não podemos contribuir para o crescimento de um grupo se não levarmos em consideração que ali há um sistema funcionando e, como tal, cada parte contribuindo com o todo e vice versa.
    Isso não significa que não se utilize técnicas para ajudar o grupo no seu processo, mas a técnica é um recurso e não um fim em si mesmo. A aplicação e a escolha da técnica serão determinadas pelo momento do grupo.
    Há uma expressão utilizada em nossa Instituição que diz assim: a melhor técnica é uma boa leitura do processo grupal. Se estivermos atentos a este processo o grupo mostrará o que e o como trabalhar a situação que se apresenta.

O Processo Grupal

O interesse pelas atividades grupais pode ser facilmente constatado através da proliferação, tanto de publicações sobre “jogos” e “dinâmicas de grupo”, como da demanda de trabalhos com grupos em contextos os mais variados. Tem se observado, no entanto, um processo de banalização constante numa perspectiva claramente tecnicista, dando a falsa impressão de que coordenar grupos é uma atividade simples e que não requer maiores conhecimentos teórico-práticos, além do conhecimento de alguns "jogos," "técnicas" e "dinâmicas" superficiais aplicadas à revelia do movimento grupal. Freqüentemente profissionais nos solicitam sugestões de alguma "técnica" para aplicar em um grupo cujas características o próprio coordenador ignora completamente.
    Os profissionais de treinamento e desenvolvimento, sem generalizar, mas considerando que em número significativo, estão habituados a trabalhar na função de “professor”, daquele que detém o saber e ensina algo para quem não sabe, ou sabe pouco. Trabalhar com o processo grupal implica em deixar de lado esta postura pedagógica e colocar-se a serviço do grupo. Não ficar acima, nem abaixo, nem ao lado, mas junto com o grupo, numa posição diferenciada dos demais membros. Esta posição é que possibilitará ao coordenador do processo grupal as decisões técnicas que contribuirão para o crescimento do grupo.    
    Quando se trabalha o processo grupal é necessário que o coordenador esteja, integralmente, disponível para o grupo e não cabe a ele dizer se o grupo está certo ou errado, se está funcionando bem ou mal, precisa confiar que o grupo sempre trabalhará no seu limite possível e, na maioria das vezes é preciso investigar, juntamente com o grupo, o que pode estar fazendo com que o seu limite possível daquele momento esteja aquém do potencial do grupo. Ao coordenador cabe levantar hipóteses de situações que possam estar exercendo influência no grupo e convidar o grupo a trabalhá-las.     
    Colocar-se numa posição em que o aprender a aprender é a motivação, é muito difícil para quem está trabalhando com um grupo, pois significa abrir mão das possibilidades de exercitar um poder, mesmo que efêmero, que lhe dará reconhecimento, visto que nesses casos o resultado é muito mais do impacto que a pessoa do facilitador causa do que propriamente da aprendizagem obtida que nesses casos não se traduzem em mudanças nos que participam da experiência vivencial.

A Formação em Dinâmica dos Grupos

A SBDG é uma instituição com mais de 27 anos e mais de 3800 profissionais formados por esta ASSOCIAÇÃO que prima pela formação, ética e técnica no entendimento e manejo de grupos e tem como principal objetivo proporcionar o desenvolvimento de Coordenadores de Dinâmica de Grupo, através da vivência e exame do funcionamento do próprio Grupo de Formação, à luz de embasamento teórico e princípios científicos.
Examinando o mercado em que atuamos, podemos perceber o quanto se diferenciam, positivamente, os profissionais habilitados por esta instituição daqueles que se utilizam de técnicas com fins de mobilizar ou impactar grupos e não consideram a análise do funcionamento do grupo e, conseqüentemente,  provocam conteúdos e temas que dependeriam de entendimento dos processos e exigem um manejo que requer uma formação específica e aprofundamento.
    A SBDG promove através de seus Didatas e Especialistas credenciados um processo que não se restringe somente a formação e supervisão de seus participantes, mas enfatiza e persegue um amadurecimento constante, a partir do autodesenvolvimento do futuro coordenador, tanto no seu autoconhecimento, como nas suas habilidades relacionais e vivências grupais.
    O Grupo de Formação é uma forma de aprender a respeito de grupos e do seu funcionamento, unindo seus membros em suas conquistas e frustrações, em suas experiências emocionais e intelectuais, em suas limitações e possibilidades, vivenciadas em cada uma das fases de seu processo de desenvolvimento. O vivenciar do processo ajuda no aprendizado do respeito por grupos e a perceber o que há de positivo na manifestação desde o afeto à agressividade,  colocando o grupo em perspectiva para cada membro e também para quem está experimentando a Coordenação.
    A conscientização dos processos transferenciais, seguida da elaboração e atualização de imagens projetadas nas experiências do grupo contribuem significativamente para a aprendizagem individual e grupal, bem como para a utilização da dinâmica do grupo e o experimentar-se sozinho ou manter-se dela afastado. A ampliação intelectual é também importante para a formação de um coordenador. Entender os participantes e o grupo emocionalmente, percebendo o que realmente ocorre no “aqui e agora” e é também a oportunidade de perceber as redes e movimentos que emergem no grupo, temas que tornam claro que o que acontece no grupo é o que mais importa na formação de um coordenador e que vai muito além da habilitação teórica.
    Desenvolver esta percepção não é uma habilidade que se adquire através da leitura ou através de exercícios utilizando grupos como “cobaias”, mas sim através da experiência de vida em grupo.
É possível ler o processo grupal porque cada um dos participantes vive o seu processo, vive um sistema grupo, aprende  pela experiência, que nada acontece fruto do acaso, mas essencialmente pelo experienciar a vivência como membro do grupo.

Os autores são diretores da Sociedade Brasileira de Dinâmica do Grupos - SBDG.